Muitos entendem que para emagrecer é necessário apenas recorrer a um nutricionista, ir à academia, no máximo visitar um médico para eliminar causas hormonais do sobrepeso. Mas o que um psicólogo poderia fazer por mim em um processo de emagrecimento?

Trabalho com uma nutricionista, e ela me disse que por vezes o paciente a procura para realizar uma reeducação alimentar. Pessoas com sobrepeso, comorbidades, como hipertensão, diabetes, intolerância a alguns alimentos etc. Mas algo de curioso acontece. É de se esperar que alguém que procure um nutricionista para emagrecer siga as orientações do profissional que procurou para que, então, alcance o seu próprio objetivo, a saber, alcançar o peso ideal. No entanto, o que acontece nos consultórios não é tão belo assim. Muitos dos que procuram tratamento com a finalidade de emagrecer têm imensas dificuldades em seguir as instruções oferecidas pelo nutricionista. Não é raro minha colega reformular cardápios de acordo com a rotina do paciente, e inserir alimentos de preferência do mesmo. Mas nada disso garante a adesão do paciente a um novo padrão alimentar.

Com a ida ao nutricionista (ou com o apelo a alguma dieta da moda), respondemos à questão: “O que comer?; O que eu devo comer para emagrecer? O que devo comer para atingir e manter o meu peso ideal?”. Os cardápios preparados para cada caso respondem adequadamente a cada uma dessas perguntas. No entanto, é comum encontrarmos pessoas que após dias de dieta se lançam em uma refeição de forma desenfreada; ou então aqueles que fizeram uma reeducação alimentar, e tempos depois “esquecem” o cardápio e as recomendações do que precisam comer. Se são tudo o que os pacientes precisam, então, porque as pessoas não seguem as preciosas instruções de nutricionistas?

Desse modo, notamos que não é apenas a pergunta “o que comer?” que precisa de resposta. Precisamos responder também a questão: “Por que as pessoas comem?”. À primeira vista esta pode parecer uma questão óbvia. Tão óbvia que nem deveria ser feita. Mas responde-la não é tão simples assim, e por isso, talvez devêssemos reformular essa questão de um modo mais particular: “Por que as pessoas comem ‘determinadas’ coisas?; Por que as pessoas ‘escolhem’ comer/beber certas coisas em detrimento de outras?”.

Primeiramente, comemos para viver. Precisamos nos alimentar para que nosso corpo adquira os nutrientes necessários para nosso metabolismo. Entretanto, podemos comer não apenas para garantir nossa sobrevivência. Quantas vezes você comeu sem estar com fome? Quantas vezes você comeu além da conta sem perceber? Comemos porque estamos ansiosos, comemos em uma reunião, comemos porque estamos celebrando, comemos porque estamos entristecidos, comemos para “matar o tempo”, comemos quando recebemos visitas, comemos. E muitas vezes temos a impressão de que comer “resolve tudo”: temos a sensação de que comer torna uma conversa mais agradável, comer diminui nossa tensão, comer aumenta nossa alegria, comer esclarece os pensamentos. Se comer diminui a minha ansiedade, mesmo tendo um ótimo cardápio, quando estiver ansiosa(o) é grande a probabilidade de que eu faça uma superalimentação. Enfim, comer resolve; é uma solução imediata, ao alcance das mãos, para tantos problemas sem solução do nosso dia-a-dia. E como o alimento associou-se a diversos momentos da rotina e do humor, comemos em excesso.

Aqui então, podemos também responder a questão inicial: “Preciso mesmo de um psicólogo para emagrecer?”. Diante das considerações acima, me parece que a resposta é afirmativa. No cenário contemporâneo, alimentar-se se distanciou da função de manutenção da vida, e adquiriu outros valores. Se esses outros valores, em última instância, me prejudicam – trazendo problemas de saúde, por exemplo – podemos considerar que a relação com a comida se tornou disfuncional. Então, é necessário identificar essa nova função que a comida adquiriu em nossa vida. Fazer isso é responder à questão: “Por que eu como?”.

Responder essa questão nos dá indícios do que é necessário mudar. Desse modo, podemos considerar que para emagrecer e se manter magro não basta apenas saber o que se deve comer. É preciso também mudar os padrões comportamentais que envolvem a atividade de comer; é preciso alterar a função da alimentação. É necessário mudar as relações que se tornaram disfuncionais. Como se faz isso? Bom, isso rende assunto para um outro momento. O importante a se mencionar aqui é que, para realizar essa mudança é fundamental o trabalho conjunto com um psicólogo.