Creio que assim como eu, todos aqueles que escolheram cursar Psicologia já foram surpreendidos com a pergunta: “Por que você escolheu essa profissão?”. As respostas podem ser as mais variadas. Alguns dizem que escolheram ser psicólogos simplesmente porque gostam; porque em um momento anterior fizeram terapia e se “identificaram com a profissão”; porque conhecem alguém que é psicólogo; porque gostam de ajudar as pessoas; e assim por diante. Mas, além de todas as razões pessoais, a Psicologia traz consigo uma missão: a responsabilidade social. Marcuse atribui essa responsabilidade social a todo cientista. Tendo em vista que a Psicologia também se configura como uma ciência, essa responsabilidade também é delegada aos psicólogos!

seu trabalho [do cientista], uma vez publicado, insere-se no mercado, torna-se mercadoria para ser avaliada pelos compradores e vendedores em potencial e, em virtude dessa qualidade social, seu trabalho satisfaz necessidades sociais. Além disso, através de sua relação com as necessidades sociais prevalecentes, o trabalho do cientista adquire um valor social; seu trabalho incorpora as características das tendências sociais predominantes e torna-se progressivo ou regressivo, construtivo ou destrutivo, libertador ou repressivo em termos da proteção e melhoramento da vida humana. (MARCUSE, 2009, p. 160)

Desse modo, muito mais do que suprir interesses pessoais, o fazer psicológico deve visar a melhoria da qualidade de vida da população. As intervenções e projetos devem ter como objetivo último não a adequação do indivíduo, mas a busca de uma existência livre e racional (MARCUSE, 2009). Muito se defende que a atuação do psicólogo deve ser neutra, de que ele não pode defender alguns valores em detrimento de outros. Aqui notamos que não é possível atuar com neutralidade, pois toda ação do cientista, do psicólogo, promove certos valores políticos e sociais. Carvalho Neto, Alves e Baptista (2007) defendem que fazer psicologia “seria fazer, mesmo que indiretamente, política” (p. 42).   Então, eis aqui a nossa missão! Ademais, vale destacar que essa missão não é exclusiva de psicólogos ou daqueles que trabalham como cientistas nos laboratórios das universidades e centros de pesquisas. Essa é a missão de todos nós profissionais, quer advogados, médicos, engenheiros, arquitetos, dentistas, administradores, pedagogos: a proteção e a melhoria da qualidade de vida humana.

Em vez de promover a conquista da natureza, a restauração da natureza; em vez da lua, a terra; em vez da ocupação do espaço extraterrestre, a criação do espaço interno; em vez de armas e manteiga nas nações superdesenvolvidas, margarina suficiente para todas as nações. (MARCUSE, 2009, p. 163)

Esse é o meu desejo: ver cada dia mais pessoas engajadas em atuar para cumprir essa missão! Vou me empenhar para que eu também possa cumpri-la. Este site é mais um instrumento para isso. Não desejo apenas divulgar meu trabalho. Quero, acima de tudo, publicar aqui matérias que colaborem para a melhoria da vida da população.

 

MARCUSE, H. A responsabilidade da ciência. Scientiae Studia, v. 7, n. 1, p. 159-164, 2009.

CARVALHO NETO, M. B.; ALVES, A. C. P.; BAPTISTA, M. Q. G. A “consciência” como um suposto antídoto para a violência. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 9, n. 1, p. 27-44, 2007.