Encerrei o trabalho dessa semana com uma indagação: por que temos tanta dificuldade em abrir mão de coisas que nos fazem mal? Será que temos prazer no sofrimento? Penso que esse não é o caso. Não pelo menos das histórias que conheço e que me fizeram levantar tal questionamento. Então, me lembrei de uma crônica que há muito ouvi, e gostaria de compartilhá-la com vocês.

“Um grande urso, vagando pela floresta, percebeu que um acampamento estava vazio. Foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou um panelão de comida. Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina.

Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia.

Quando os caçadores retornaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo”.

Essa história me parece muito atual, e ilustra perfeitamente o dilema do meu trabalho. Por que temos tanta dificuldade em abrir mão de coisas que nos fazem mal? Talvez a resposta seja: porque um dia tais coisas nos fizeram bem.