Recentemente li uma metáfora chamada “Copo Mau” que chamou muito minha atenção. Essa metáfora tenta mostrar como muitas vezes sofremos ao consider que características valorativas fazem parte de um objeto ou situação a priori. Assim, a aula daquele professor é necessariamente ruim, falar com aquela pessoa é sempre desagradável, eu sou agressivo, como se não houvesse a possibilidade dessas coisas serem diferentes.

Seguem abaixo trechos da metáfora para vocês:

“Há coisas em nossa linguagem que nos conduzem a batalhas psicológicas desnecessárias, e é bom perceber como isto acontece para que possamos aprender a evitá-las. Um dos piores truques que a linguagem nos apronta está na área das avaliações. […] Se nós descrevermos algo especificamente, as nomeações não podem mudar até a forma do evento mudar. Se eu disser, “aqui está um copo”, eu não posso então me voltar e afirmar que não é um copo mas sim é um carro de corrida, a menos que eu de algum modo mude o copo. […] a nomeação não muda ao acaso.

Considere agora o que acontece com conversas avaliativas. Suponha que uma pessoa diga, “este é um copo bom”, ou “este é um copo bonito”. Soa o mesmo como se essa pessoa estivesse dizendo, “este é um copo de cerâmica”, ou “este é um copo de 8 reais”. Mas é realmente a mesma coisa? Suponha que todas as criaturas do planeta morram amanhã. Este copo é ainda um copo de cerâmica. Mas é ainda um copo bom ou um copo bonito? Sem qualquer um para ter tais opiniões , as opiniões se vão, porque bom ou bonito nunca estiveram no copo, mas sim na interação entre a pessoa e o copo. Mas observe como a estrutura da linguagem esconde esta diferença. Parece o mesmo, como se “bom” fosse o mesmo tipo de descrição que “cerâmica”. […] O problema é que se você deixar “bom” ser esse tipo de descrição, significa que “bom” tem que ser o que o copo é, da mesma maneira que “cerâmica” é. Esse tipo de descrição não pode mudar até que a forma do copo mude. E se alguma outra pessoa disser, “Não! aquele é um copo terrível!” […] há uma discordância que aparentemente tem que ser resolvida.

Por outro lado, se “bom” for somente uma avaliação ou um julgamento, alguma coisa que você está fazendo com o copo em vez de algo que está no copo, faz uma grande diferença. Duas avaliações opostas podem facilmente coexistir. Não refletem algum estado da matéria impossível no mundo, tal como o copo ser ao mesmo tempo de cerâmica e metálico. Ao contrário, refletem o simples fato de que os eventos podem ser avaliados como bons ou maus dependendo da perspectiva. E, é claro, não é nenhum absurdo que uma pessoa possa ter mais de uma perspectiva. Nenhuma avaliação necessita prevalecer como no caso de um fato concreto.” (HAYES; STROSAHL; WILSON apud SABAN, 2011, p. 66-67)

 

SABAN, M. T. Introdução à terapia de aceitação e compromisso. Santo André, SP: ESETec, 2011.